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Edição 1, jan-abr 2025

JOVENS AUTORES

Pinto Chico Nancassa


É licenciado em Língua Portuguesa pela Escola Superior de Educação (ESE) – Unidade Tchico Té e Mestre em Educação, especialidade em Administração Educacional pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa – Portugal.

Os seus poemas foram publicados nas três primeiras edições da antologia “EscritAfricando 21”, “EscritAfricando 22” e “EscritAfricando 23” organizadas pela associação Ser Mais Valia e publicadas, respetivamente em 2022, 2023 e 2024.



Amor à última vista

O dia dos namorados estava a chegar ao fim. Mais um São Valentim a deixar as suas mais variadas marcas nos peitos dos amantes. Os que madrugaram estavam já a voltar para casa, uns felizes outros infelizes. Os felizes certamente tiveram os seus presentes e seus parceiros. Agora podiam partir para outras conquistas; os infelizes deveriam ter recebido muita canela[1] e voltavam de mãos a abanar, mas com o coração a pesar toneladas de dor. A estes só interessava estender-se na cama e deixar que as horas passassem e levassem as mágoas embora.

Os que só a partir das dezanove horas saíram de casa à procura do seu par terão garantido que dessa hora em diante não poderia haver surpresas desagradáveis. Terão tido as suas aventuras e então iam agora assinar o ponto devidamente.

No caminho de volta, dois velhos amigos se cruzaram. Estavam quase de rastos e pareciam precisar de um abraço amigo, uma palavra de encorajamento, sabe-se lá mais o quê. No início, quando ainda se distavam uns trinta metros, no lusco-fusco da cidade, num dia quase sempre nublado, não se tinham reconhecido um ao outro; só estando a uma distância de menos de cinco metros é que puderam decifrar a fisionomia um do outro.

– Então, Deusa, tu aqui a esta hora?! – perguntou exclamativo o rapaz. – Não devias estar com o teu namorado?

– Oh, Dionísio, meu irmão... nem te conto – começou por responder a Deusa. Teve que parar para não chorar. As lágrimas pesavam-lhe nos olhos e teve que mantê-los abertos por algum tempo para não gotejarem.

– Onde está o Furtado? – tornou a perguntar o rapaz. – Não me digas que ele voltou a viajar sem te informar, ainda mais em dia assim.

– Qual viajar? Bom, na verdade... viajou mesmo – disse a Deusa, meio gaga. – Viajou para os braços de outra – acrescentou ela depois de um grande esforço para conter as lágrimas e a voz do seu choro interior.

– Como assim “viajou para os braços de outra?” – quis saber de novo o velho amigo.

– Bom, alguém o furtou, tal como o nome dele sugere – ripostou a menina. Estava aos poucos a voltar ao normal. A voz já lhe tremia menos e a lagoa que se lhe acumulava nos olhos estava a ficar sem correnteza.

– Vocês foram sempre muito amigáveis. Pareciam feitos para se completarem. Como pode isso acontecer de um dia para o outro? – insistiu o Dionísio. Ele também tinha a sua mágoa congelada, mas a infelicidade da amiga estava a deixá-lo muito mais sofrido.

Amigos de longas chuvas, tratando-se às vezes como irmãos, Deusa e Dionísio olharam-se demoradamente, olhos nos olhos e engoliram várias vezes em seco. Tinham partilhado muitos momentos menos bons, alguns falecimentos, mas nada como o que carregavam nessa noite. No passado, pelo menos um podia consolar o outro. Mas agora que estavam na mesma situação, era pouco provável que alguém em estado de nudez pudesse ajudar o outro que também estava na mesma situação a tapar-se. Ainda assim, lá se arrastaram e sentaram-se no banco de uma paragem de autocarros. Queriam poder dizer uma palavra que fosse capaz de anular toda a dor e luto por que estavam a passar, mas não sabiam que palavra. O silêncio parecia estar a resultar. Então, deixaram-se levar por ele, enquanto reviam o filme do seu dia.

– E tu, Dionísio? Por que estás também assim? – perguntou finalmente a Deusa para quebrar a longa mudez que lhes gritava e inquietava por dentro. – Pareces uma mulher que acabou de dar à luz um bebé morto. Também levaste um fora, não foi?

– Foi... Fazer o quê? É a vida – confessou o rapaz, sentindo arrepiarem-se os músculos peitorais.

– Oh, vem cá, meu amigo! Pelo menos temo-nos um ao outro… como sempre – disse-lhe a menina, puxando-o para si. Manteve-o no seu peito por alguns minutos, desculpando-se por ter sido egoísta. Afinal de contas, os dois estavam na pior, mas ela parecia o centro das atenções.

– Ah, deixa estar – retorquiu o Dionísio. – Eu já estou quase habituado a isto. Acho que não tenho sorte no amor. Sabe-se lá quando terei alguém assim como tu. Eh… Quer dizer, como o que parecias ter.

Ainda abraçados, o rapaz sentiu o peso das suas palavras no peito da amiga e desprendeu-se dela.

– Dió...! – chamou-o a menina, tal como o chamavam entre os amigos. – Estás mesmo a pensar em ter outro tipo de relação comigo? Somos quase irmãos...

– Deuzy, minha querida, crescemos juntos, mas isso não nos torna família. Até porque nos beijámos uma vez na nossa inocência e nunca mais voltámos a pensar nisso, com medo de não ardermos no fogo do inferno...

– É, sim – cortou a Deusa. – Foram bons tempos. Quem diria que um dia estaríamos a afogar as mágoas do amor juntos! Dá cá mais um abraço – pediu ela. Ao se apertarem de novo, os seus lábios se tocaram de leve, o que foi suficiente para acender uma chama nunca antes vista ou sentida entre eles.

– Há quanto tempo estás apaixonado por mim, Dió? – perguntou a menina na certeza do que estava a dizer. – Este beijo não é um acidente, soube a paixão.

– Desculpa, Deuzy – disse carinhosamente, tal como há pouco. Também era a forma como a Deusa gostava de ser tratada. – Já me apaixonei várias vezes por ti nestes últimos três ou quatro anos. É um amor à última vista, mas é uma planta que não me permiti regar, pois sabia que não daria em nada. A nossa relação de quase irmãos minaria tudo, sem contar que tinhas um bom namorado...

– Oh, Dió! Podias tentar numa das várias vezes que estiveste a curar-me as chagas das pancadas da paixão. Sempre tiveste a chance de te declarares, ainda que não fosse dar em nada.

A Deusa falava agora como se tivesse acabado de despertar para uma realidade a que sempre esteve alheia. O efeito do beijo deve ter sido contagiante. Sentia que fora sempre injusta para com o amigo que abnegadamente lhe dispensava o seu apoio variadíssimas vezes. “E se ele nunca pôde construir uma relação por minha causa?”, pensou ela sem dizer uma palavra.

– Olha, digamos que sempre fomos apaixonados um pelo outro, mesmo não o tendo manifestado. Vamos ver no que dá este nosso amor à última vista – propôs ela, sorrindo maldosamente. – Tudo o que importa agora é tentarmos viver e ainda bem que existe sentimento entre nós.

– Tudo depende de ti, és a deusa aqui – respondeu o Dionísio, ao que ela reagiu lembrando-lhe que pelo nome também ele era deus.

Abraços e beijos voltaram a incendiar-lhes os corações. Como o mundo é uma bola de futebol! Há menos de trinta minutos estavam na lama do amor. Aí estavam eles agora mais felizes do que nunca. Que bela forma de terminar um dia assim! Conhecendo-se há mais de vinte anos, a única certeza que tinham essa noite, a única coisa que sentiam, era que finalmente tinham encontrado o Amor. Parecia já tarde, mas ao menos não morreriam sem provar o verdadeiro amor, um amor à última vista.

Camarate, 14.02.2023

 

Um estrangeiro no estrangeiro

– Podia dizer-me quanto seriam exatamente esses 50 por centos de desconto, senhora? – perguntou o transeunte. Falava baixo, como que a medo, e quase não conseguia ouvir o que ele próprio dizia.

Olhou para trás e para os lados a confirmar que ninguém o estava a escutar e tornou a esgueirar-se no mesmo sítio, rodopiando sobre só próprio. Colou a testa à janela de vidro para enxergar melhor lá dentro. Enquanto olhava para os vestuários em promoção, aproximou o ouvido esquerdo dos lábios da sua interlocutora, a qual achava que falava baixo demais.

– Desculpa, senhora – disse de novo. Ter-se-ia esquecido dessa palavra talvez – queria saber quanto pagaria por aquelas calças, já com os descontos de 50 por centos. “Estes brancos com a sua mania de desprezar as pessoas, ainda mais os negros”, pensou ele, certo de que a senhora plantada à entrada da loja não lhe queria dar uma palavra. “Pensam que são superiores, mais dignos deste mundo que nasceu em nossas terras”.

Enquanto esperava que a outra respondesse, aproveitou para ajeitar a roupa que estava a usar. Puxou as calças e apertou um pouco mais o cinto e depois endireitou as golas do casaco. De tanto mexer, tocou inadvertidamente na senhora sexy que não teve pernas para se segurar e caiu-lhe em cima.

– Desculpa, senhora! O que tens? – precipitou-se a agarrá-la para ela não cair no chão, sentindo-se profundamente culpado pelo acidente. – Ai, meu Deus, ajudem-me, a senhora está a passar mal! – pediu socorro.

Rapidamente foi acudido pelos funcionários da loja e por alguns passantes como ele. Por mais estranho que parecesse, ele constatou que todos estavam a rir-se dele. “Como podem pôr-se a gargalhadas quando uma mulher está a passar mal?”, queria ele saber, mas fazendo a pergunta no seu silêncio interior.

– Não faz mal, senhor – disse-lhe sorridente uma menina que atendia no local. Mas ele continuou a estranhar essas reações.

– Não é uma pessoa, é uma manequim, uma boneca de amostra para a roupa –esclareceu uma outra funcionária que que no início também não conseguia dominar o riso. Para lhe provar o que dizia, arrancou a cabeça à boneca e mostrou-lhe como ela não tinha sangue. – Olha, não sangra. Se fosse um ser humano, eu não teria conseguido arrancar-lhe a cabeça.

O jovem murmurou qualquer coisa que nem o próprio sabia decifrar. Estava bastante envergonhado por não ter conseguido distinguir uma boneca de uma pessoa, acabando por fazer um grande filme. Sentia-se agora mais estrangeiro do que quando chegou há relativamente seis meses.

Sem olhar para ninguém ou para trás, e tendo perdido todo o interesse em saber da promoção, lá foi ele levantando os seus ombros em marcha rápida e saltitante em direção ao seu destino original, menosprezando-se. Pensava: “Ainda que a sentinela à minha frente estivesse totalmente coberta de roupa e chapéu, eu deveria saber que não estava perante uma pessoa. Então, e aquele olhar fixo e demorado sem pestanejar, e aquele pescoço fininho e alongado que não se mexia”, questionou-se, “não podiam significar nada?”.

Bom, pelo menos tinha acabado de aprender uma grande lição. Pensando que não tinha apanhado o pé[2] ao contrário do que acreditava, jurou que essa era uma história que só contaria ao seu filho, no dia em que tivesse certeza de que morreria logo de seguida.

Sacavém, 15.02.2023 

[1] Do crioulo (toma kanela): perder o(a) parceiro(a) a favor do(a) outro(a).

[2] Do crioulo (panha pé): entender como as coisas são; ter conhecimento de algo.