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Edição 2, mai-ago 2025

JOVENS AUTORES

Caminaté Na Rang


Natural de Bissau (Guiné-Bissau), é licenciado em Informática e Tecnologias Multimédia. Trabalha na Câmara Municipal de Abrantes como Técnico de Sistemas e Tecnologias de Informação.

É apaixonado pelo futebol e um curioso pela área da literatura, tendo participado em várias Antologias publicadas pela Ser Mais Valia, através do projeto EscritAfricando.






De mochila às costas e coração cheio: o meu caminho até aqui

Cheguei a Portugal há cerca de três anos e meio, com uma mochila às costas e um sonho no coração: estudar, formar-me e construir um futuro digno. Escolhi como destino a Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, onde me matriculei no curso de Informática e Tecnologias Multimédia. Não foi fácil, e hoje, ao olhar para trás, percebo o quão longe cheguei. Este é o meu testemunho — mais do que um relato, é uma partilha de sacrifícios, conquistas e esperança.

Os primeiros passos

O primeiro impacto foi marcante. Apesar de já ter alguma noção da língua portuguesa, senti, como muitos que chegam de longe, o peso das diferenças culturais e da forma como se comunica em Portugal. A adaptação foi um desafio — desde as interações no dia a dia até às expressões usadas nas aulas.

A nível académico, o início também não foi simples. O sistema de ensino, o ritmo das aulas e a exigência em termos de autonomia obrigaram-me a dar o dobro de mim. Ainda assim, mesmo tendo começado com cerca de um mês de atraso, consegui concluir todas as cadeiras do primeiro semestre com sucesso. Foi uma pequena vitória que me deu forças para continuar. A partir daí, mantive sempre um bom desempenho académico.

Lutar com o que se tem

As dificuldades financeiras foram uma constante. A bolsa de estudo que recebia era limitada e, por vezes, os pagamentos atrasavam-se, o que me obrigava a fazer malabarismos com o pouco que tinha. Mas nunca me faltou a vontade de seguir em frente.

Felizmente, não caminhei sozinho. A Associação Ser Mais Valia, o meu mentor e a minha família foram apoios fundamentais em todos os momentos. O acompanhamento que recebi, os conselhos que me foram dados e a simples presença constante de quem acredita em nós foram determinantes para manter o foco e não desistir.

Ano após ano, passo a passo

No segundo ano, já mais adaptado, consegui manter o ritmo e concluir todas as unidades curriculares com sucesso. Sentia-me mais confiante, mais à vontade com o ambiente e mais preparado para o que viria a seguir.

No terceiro ano, depois de concluir o quinto semestre, iniciei o estágio curricular na Câmara Municipal daquela que é agora a minha cidade. Integrei um projeto de desenvolvimento de uma plataforma de e-commerce destinada à comunidade local. Dei o meu melhor — estudei, pesquisei, propus soluções, programei, testei, voltei a testar. O projeto foi um sucesso e o meu trabalho foi reconhecido. Fui convidado a continuar, desta vez como trabalhador a recibo verde, o que para mim já era uma enorme conquista: trabalhar na minha área, logo após o curso, e ainda por cima no mesmo local onde estagiei.

Meses depois, surgiu um concurso público aberto para o mesmo departamento. Decidi concorrer, com a esperança de alcançar um vínculo mais estável. Acreditei, preparei-me com dedicação e, com orgulho, posso dizer que ganhei o concurso. Hoje sou efetivo na Câmara Municipal, com contrato assinado, a desempenhar funções na minha área de formação.

Muito mais do que um curso

Durante estes anos, conquistei mais do que um diploma. Concluí a carta de condução, ganhei experiência profissional, aprendi a viver longe dos meus, a gerir a saudade e a construir uma nova vida com as ferramentas que tinha. Aprendi a dar valor às pequenas vitórias e a não me deixar abater pelos obstáculos. Acredito que a verdadeira conquista está na capacidade de resistir e continuar a acreditar, mesmo quando tudo parece difícil.

Hoje

Hoje, olho para o meu percurso com orgulho e gratidão. Orgulho por nunca ter virado as costas à luta, mesmo quando ela parecia maior do que eu. Gratidão por todas as pessoas e instituições que caminharam ao meu lado e que continuam a acreditar no meu potencial.

Se esta partilha puder tocar alguém que esteja a passar por uma fase difícil, então já valeu a pena escrevê-la. Porque cada passo conta, e o mais importante é nunca desistir — nem de nós, nem dos nossos sonhos.

Caminaté Na Rang