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Edição 2, mai-ago 2025

JOVENS AUTORES

Pinto Chico Nancassa


É licenciado em Língua Portuguesa pela Escola Superior de Educação (ESE) – Unidade Tchico Té e Mestre em Educação, especialidade em Administração Educacional pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa – Portugal.

Os seus poemas foram publicados nas três primeiras edições da antologia “EscritAfricando 21”, “EscritAfricando 22” e “EscritAfricando 23” organizadas pela associação Ser Mais Valia e publicadas, respetivamente em 2022, 2023 e 2024.



Pronto, já lavei o prato

 

Eram 14:30. Mais um almoço terminado. Daqui a nada a mãe chamaria as crianças para irem para a cama, antes que o pai aparecesse e as visse dispersas pela casa ou pela vizinhança. Isto, se cada uma já tivesse lavado o prato do almoço.

Pelos cantos ia-se esgueirando a menina Maria. Estas horas eram sempre o seu pesadelo. Ela odiava lavar os pratos e os talheres que usava. Arranjava sempre cada artimanha para fintar a atenção da mãe até conseguir que outra das irmãs ou a própria mãe se ocupasse da sua obrigação – lavar-lhe o que sujou no almoço. Nesse dia, porém, não estava destinada a ter tal sorte. Enquanto se demorava na casa de banho, depois das suas brincadeiras infantis pela manhã, já os outros meninos estavam a comer. Quando se sentou para a sua refeição, os outros quase terminaram.

– Nem esperaram por mim – reclamou ela com cara de poucos amigos e a boca cheia de comida. – São malvados. Saiam daqui! – disse outra vez. A sua cara parecia que ia explodir. Sentia-se injustiçada, sobretudo pelas irmãs.

– Come primeiro, depois relatas o que tanto tens pressa em relatar – gritou-lhe a mãe. Ela habitualmente repreendia as filhas deste jeito na hora de comer. “Com que boca comem e com que outra falam?”, costumava dizer, ameaçando bater alguém na boca ou retirar-lhe o prato de comida.

– Elas só querem que eu fique a comer sozinha como uma feiticeira – retornou a Maria. – Eu costumo esperar por todos para comermos juntos, por que eles não fazem o mesmo? – acrescenta a menina. Não parava de olhar para a mais velha, que acreditava ter-lhe pregado a partida. Em si, tomava a decisão de nunca mais se atrasar, muito menos esperar ou chamar quem se atrasasse.

No momento em que terminou o almoço, já os outros estavam a secar as mãos. Só faltava ela dar trato às coisas que tinha sujado. Entrou na cozinha, pousou o prato no lavatório e ficou a olhar em volta. “Estou de barriga cheia e não posso esforçar-me mais em lavar isto. Vou ficar com dores”, pensou. Olhou demoradamente para o armário da cozinha e viu que ainda continha muitos desses pratos. Pegou num, pôs no recipiente escoador da louça e partiu o outro que trazia sujo.

– Pronto, já lavei o meu prato – disse ela, metendo os cacos na lixeira. Depois olhou em volta para se certificar de que ninguém a tinha visto. Ouviu a mãe chamá-la para ir dormir a sesta. Apressou-se a esclarecer que estava a terminar na cozinha, o que fez a mãe dirigir-se para lá, desconfiada. “Desde quando esta menina lava o prato em tão pouco tempo e de tão boa vontade?”, pensou a mãe ao dirigir-se para a cozinha.

– O pai dá jeito nisso. Ele sempre dá um jeito nas coisas – disse a menina Maria, enquanto fechava a tampa da lixeira. Ia a sair quando se deu de caras com a progenitora que lhe perguntou:

– O pai vai dar que jeito?

– O quê? – respondeu a menina surpreendida por ver a mãe na cozinha. Chegou até a tremer. – Ah, nada. Estava a só a pensar numa máquina de lavar loiças que espero que o pai compre um dia – explicou-se ela, olhando na direção da lixeira cuja tampa não estava devidamente fechada.

Ainda desconfiada, a mãe foi verificar e viu pedaços e pedaços do pratos partidos que quase enchiam o recipiente.

– Maria, volta aqui! – ordenou ela. A filha acedeu. – O que é isto, criança malvada? – perguntou irritada a mãe. Levantou a mão para ela, mas arrependeu-se e baixou-a. Ainda assim, a filha já chorava praticamente.

– Escapou-me das mãos, mãe – respondeu a Maria com uma voz meio húmida. De repente, as suas mãos tiveram coceira e pôs-se a esfregá-las. O mesmo fazia com a parte esquerda do corpo entregue à parede, assim como as cabras se esfregam na parede.

– Não te vou bater, mas não sei o que faço contigo. Todos estes cacos são de um prato só? – disse ela. Olhava para a filha a quem parecia não estar a ver. – No mínimo estão aqui quatro pratos partidos. Isso tudo é só para não ter que molhar as tuas mãos de senhora para os lavar? Meu Deus do céu e da terra! – suspirou ainda a mãe bastante revoltada e desanimada ao mesmo tempo. “Por isso o pai vai dar um jeito”, pensou em si sem dizer nada, mas acabando finalmente por compreender os estratagemas da filha. Nunca lhe passou pela cabeça que a filha fosse capaz de tal coisa, mesmo quando dava pela falta dos pratos. 

Contrariada, afastou-se para o seu quarto, deixando a menina só. Esta estava envergonhada, mas ao menos tinha o pai para a compreender e animá-la depois de umas breves repreensões nada sérias. Dirigiu-se, todavia, ao quarto da mãe para se desculpar. Ela não era de deixar uma culpa sem perdão. Fazia os seus cálculos adiantada e antecipadamente e quase que conseguia prever tudo.

– Desculpa, mãe. Não vou mais partir outro prato – disse. Mantinha-se de cabeça abaixada desde que ia a caminho do dormitório da mãe. Não queria encarar a mãe para não parecer ousada demais.

– “Desculpa, mãe” – respondeu a progenitora, imitindo-lhe a voz. – Olha para a boquinha dela. Eu não consigo perceber como podes portar-te assim. Partir os pratos só para não os lavar! – exclamou de novo a mãe.

– É por causa daquela doença que me apanhou na mão da outra vez. Por isso eu peço que me ajudem com o prato para não voltar a adoecer, mas eles recusam-se – explicou a menina Maria. – E eu ajudo-os sempre no que não conseguem fazer. Outro dia, a Sebastiana pediu-me para lhe ajudar a apanhar o cabelo atrás e a atar-lhe os sapatos, porque ela não sabe fazê-lo bem. Eu fiz tudo. Antes disso, o Filipe pediu-me para lhe desenhar uma pessoa e uma árvore, o que também fiz. Mas eles não me ajudam nem se lembram disso – encerrou ela. Para cada explicação que dava, levantava o indicador de uma mão diferente. Parecia um maestro a dirigir uma orquestra.

– Oh, Maria, minha filha! – disse a mãe sentida com as palavras dela. – É verdade que tiveste aquela doença de pele, mas já passou há muito tempo. Além do mais, não precisavas de partir os pratos. Podes sempre falar com a mãe. Hum…! Achas que não gosto de ti como o pai gosta? Eu gosto. És a minha filha. Só não gosto que me escondas coisas, ou que as faças de um jeito mau. Disseste que o pai vai dar um jeito, é verdade. Mas se soubesses como o teu pai trabalha para dar o jeito às nossas vidas… Acho que preferirias voltar a ter aquela doença nas mãos a fazê-lo comprar sempre as coisas para repor. Vem cá – puxou a filha e sentou-a no colo. Afagou-lhe os cabelos e fez-lhe cócegas, o que a fez rir como nunca. – Podes confiar em mim assim como confias no teu pai. Está bem, Mariazinha? – afiançou-lhe a mãe. Ela aceitou, acenando com a cabeça.

A mãe olhava para ela agora com uma admiração quase inédita, não fosse ela conhecedora da própria filha. A menina era boa em muitas coisas – desenhar, atar as cordas dos calçados –, mas tinha um fraco por trabalhos caseiros, contrariamente aos outros irmãos. Estes despachavam as coisas da casa facilmente, mas tinham dificuldades com o que parecia mais simples – desenhar uma pessoa ou uma árvore ou apertar os calçados devidamente e por aí.

– Vai para o vosso quarto, quero descansar um pouco – ordenou a mãe, passando-lhe a mão esquerda pelo ombro, massageando-o levemente. Continuou a apreciá-la enquanto a menina Maria se distanciava dela. Acompanhou-a com o mesmo olhar materno e terno até ela se lhe perder de vista. Sorriu, ajeitou o seu travesseiro e pousou a cabeça para um merecido sono vespertino.

Camarate, 08.02.2023

Pinto Chico Nancassa