Jorge Arrimar é um autor angolano e português em crescente afirmação. Natural de Chibia, província de Huíla, publicou o primeiro livro em 1975 (Ovatyilongo, poesia – ver texto de Eduardo Bettencourt Pinto) e o seu romance Cuéle – O Pássaro Troçador (2022) ganhou em novembro passado o “Prémio de Literatura dstangola/Camões”.
Conta já com onze títulos de poesia e seis de ficção, num trabalho em que se destacam O Planalto dos Pássaros (2002), O Planalto do Salalé (2012) e O Planalto do Kissonde (2013). A sua escrita tem vindo a afirmar na literatura em língua portuguesa o Sul de Angola e a cultura tradicional daquela zona de África de que Jorge Arrimar é originário.
O seu Cuelé – O Pássaro Troçador leva-nos a um mergulho na vida diária daqueles povos e a assistir, não completamente de fora, aos ventos da História que desde fins do Séc. XIX têm abalado aquele pequeno-grande mundo.
Como convite à descoberta da sua obra, o EscritAfricando colocou (por e-mail) a Jorge Arrimar algumas questões a que ele acedeu a responder. Ao autor, o nosso Obrigado.
Como se desenvolveu o seu interesse pela escrita literária como autor?
O meu interesse pela escrita foi surgindo à medida que ia lendo mais e mais. Muito cedo comecei a apaixonar-me pela leitura. Escrever um poema, um conto ou, porventura, um romance, passou a ser algo que esperava realizar um dia. Passar de leitor a autor levou, naturalmente, algum tempo. Encontrava-me nos últimos anos do ensino secundário quando, eu e alguns amigos, fundámos o Grupo Cultural da Huíla - GRUCUHUILA. E uma das nossas atividades era manter um suplemento literário num jornal local, o “Jornal da Huíla”. Foi aqui que eu, pela primeira vez, publiquei poemas e outros textos. Estávamos nos anos de 1972 e 1973.
Como aconteceu a aventura da primeira publicação, Ovatyilongo (poesia), em 1975?
Foi mesmo uma aventura a publicação do meu primeiro livro. Estávamos em 1974 e eu com vontade de publicar os poemas que aguardavam, no fundo gaveta, por um futuro melhor. Mas, naquela época, em qualquer lado, não era fácil publicar um livro, a não ser que viesse de alguém com reconhecimento intelectual e cultural. E na cidade de Sá da Bandeira, como ao tempo era chamada a cidade do Lubango, talvez fosse ainda mais difícil, sobretudo no meu caso, um jovem de vinte anos de idade, professor provisório numa escola da periferia. Não só por isso, mas também pelo facto de a PIDE ter encerrado a única editora, a Imbondeiro. Mas uma das duas tipografias existentes, aceitou o meu manuscrito para eventual impressão, não sem antes terem-me avisado que antes de alguma decisão o enviariam a um professor de português e literatura do Liceu local para apreciação e abalizada opinião. Passados uns vinte dias voltei à tipografia e quem me atendeu olhou-me com alguma insistência, como a tentar descobrir em que medida me podia encaixar no título daquele projeto de livro. "Ovatyilongo", murmurou ele sem perceber o que dizia. E para que eu, como autor, tivesse alguma saída, convidou-me a trabalhar o livro e, sobretudo, a traduzir tudo o quanto fosse palavra “gentia” para bom português. A não ser assim, não nos via, ao livro e a mim, com futuro na literatura. Segundo ele, ninguém conseguiria ler aquele livro, pois os que conheciam o assunto, não sabiam ler; os que sabiam ler, não entendiam nada do assunto. E profetizou logo ali, que se tratava de um livro condenado a não ter leitores e o seu autor condenado a ser um escritor que ninguém lia. Pouco tempo depois, a guerra civil instalava-se pesadamente e o livro foi mais uma das inúmeras coisas que ela consumiu. Restaram pouquíssimos exemplares, alguns só encontrados em alfarrabistas. Pelo menos por este motivo o anátema se cumpria.
Publicou onze títulos de poesia e seis de ficção. Considera-se mais poeta ou ficcionista? Como autor, sente uma diferença significativa entre a escrita de poesia e de ficção?
Se fosse só pelo número de títulos, poderia dizer que sou mais poeta, pois tenho o dobro de livros neste género literário. Mas como não é assim que se avalia a produção literária, direi que me considero tanto poeta como ficcionista, ou até as duas coisas ao mesmo tempo. Quantos poemas são uma ficção de uma ponta à outra e quanta narrativa ficcional está tão imbuída de poesia que até a chamamos de prosa poética. A poesia não se restringe a um só modelo, ela vai para além disso e podemos encontrá-la em quase tudo o que escrevemos. Eu acho, ou melhor, tenho a certeza de que os textos melhores da minha ficção são aqueles em que é evidente a sua permeabilidade à poesia.
“Cuéle – O Pássaro Troçador”, a última publicação, ficção (2024), está a ter uma muito boa receção. Com essa obra, de 438 págs., pretende resgatar do esquecimento definitivo personagens da história mais ou menos anónimas do sul de Angola nos finais do séc. XIX e primeiras décadas do séc. XX. É, podemos dizer, um documento histórico em registo ficcional. Quanto tempo demorou a escrever? Pode dizer-se que é uma literatura de compromisso social? Em que medida?
Há novas abordagens da historiografia que se afastam da tradicional apresentação dos livros de História e se mostram de forma mais leve e menos formal. Isto sem fugir ao rigor histórico, mas para tornar a leitura menos pesada, menos densa. Já na ficção o autor é livre de abordar os factos e de os ficcionar, e de imaginar situações, episódios, que ocupem os lugares vagos que a história deixou por falta de fontes. No caso da ficção, em que a história é apenas o pano de fundo, a realidade é apenas um ponto de partida. Claro que um texto que vá para além do nosso próprio tempo, exige pesquisa, estudo, pois tudo nos é distante, não só os factos mais importantes, mas também as coisas pequenas do quotidiano que são, afinal, a rede que suporta a trama do conto ou do romance. Cuéle, o pássaro troçador não é um documento histórico em registo ficcional. Na minha perspetiva, como autor, é o contrário. Trata-se de ficção em que a componente histórica existe e é importante para lhe dar verosimilhança. A história está lá no fundo a suportar a ficção sem a atropelar. Digo isto porque foi o que pretendi fazer com este romance. Levei cerca de dez anos a escrever este livro. Claro que não são dez anos completos, oito horas por dia. Bem espremidos estes dez dão muito menos. Só que, de facto, esta narrativa esteve na minha cabeça e nas minhas preocupações durante esse período. E os anos mais produtivos foram os da epidemia da Covid 19, que nos fez estar horas a fio sem poder sair de casa. Nesta altura dei um grande avanço à minha escrita.
Este livro tem naturalmente um compromisso social. Não de uma forma direta ou panfletária, mas criando situações em que o leitor é chamado a pensar, a avaliar as situações por si próprio. O autor tentou assumir o ponto de vista de cada “lado/personagem”, num esforço nada fácil de se ir despindo dos seus eventuais preconceitos, origem e simpatias (bem contraditórios, por vezes). Sabendo da fragilidade das convicções, o cuéle aparece pontualmente para troçar das nossas “verdades”, dos nossos fracassos e contradições.
Cuélé é uma “voz” crítica que pontua a narrativa. Se escrevesse sobre a vida social portuguesa de hoje, de que se riria o Cuéle?
Penso que ficaria rouco de tanto cantar/troçar. Quase todas as semanas sabemos de novos casos de corrupção e de outros casos de contornos tão estranhos, tão invulgares, que matariam o cuéle de tanto cantar.
Como é a sua rotina ou o seu método de trabalho na escrita literária?
Começo por pensar num tema e, à medida que vou avançando na escrita, mais possibilidades se levantam, como se o próprio processo de escrita abrisse novas portas, criasse caminhos. E assim o texto vai avançando. Mas nunca sei, à partida, como o livro vai acabar. Cada livro é um mistério que aos poucos se vai desvendado, primeiro pela escrita, depois pela leitura. E pela reescrita. O produto final é algo diferente do inicial. Cortar, reformular, mudar de lugar, questionar, pesquisar mais, fazer crescer as personagens, enfim…
Alguns escritores angolanos são muito conhecidos em Portugal. Indique-nos um que seja pouco ou nada conhecido, mas que é necessário “resgatar” do esquecimento.
Indico dois: Arnaldo Santos e Fernando Fonseca Santos, na ficção; João Maimona e Amélia Dalomba, na poesia.
Que conselho(s) daria a um jovem africano de língua portuguesa que quer afirmar-se na escrita literária?
Que leia sempre muito, textos de bons escritores, tanto de língua portuguesa, como de outros idiomas. Que tente conhecer as suas tradições, as que o fazem pertença de um povo e de uma nação, mas que não seja fechado sobre si próprio. Que se abra ao que o rodeia e se inspire no que vê, no que, quotidianamente, o faz feliz ou o faça sofrer. E que se abra ao conhecimento em geral e à cultura. Saber muito, procurar informar-se sobre todos os aspetos da vida e da mente humana – ciência, história, filosofia, psicologia enriquecem o seu substrato cultural, o que é muito importante como base do processo criativo e da produção. E não querer, à partida, fazer “grandes coisas”. Começar pelo simples, pois o simples, por vezes, é o mais difícil.