Jovem jornalista guineense, é coordenador do Departamento de Comunicação e Visibilidade da Associação de Estudantes da Guiné-Bissau em Lisboa (AEGBL).
Ontem, conversei com a Guiné e ouvi os gemidos de Bissau.
Vi as correntes de lágrimas do desespero que lhe escorriam pelo rosto,
Senti o peso da fadiga que carregavam suas palavras de esperança;
Embora tentasse disfarçar as dores, seu corpo dizia não aguentar mais a tortura.
A Guiné contou-me que Bissau estava cansada de acordar antes da noite dormir,
Porque não dormia enquanto o sol não acordasse seguro para começar a sorrir.
Sua alma não deitava, mesmo que o seu corpo estendesse os pés pela cama;
Os seus olhos já não piscavam, mesmo com décadas de dívidas de sono.
A Guiné contou-me que, em cada manhã, Bissau murmurava o meu nome,
Que em cada tarde as escolas e as salas de aula perguntavam por professores,
Que em cada madrugada os hospitais soluçavam de solidão nos consultórios,
Que em muitas casas a fome arrendava um quarto e a dignidade saía pela janela.
Mas a Guiné também me contou que Bissau já se tinha encontrado em novembro,
E que ela própria, a Guiné, foi quem pela mudança naquele dia se expressou.
Ainda que esfaqueada pela fome, “tem que ser diferente, desta vez”, assim jurou.
Guiné, não se dobre, não se renda ao fulano: essa “turbada” é só em setembro.
Eliseu Sambú / Alcântara, 12.12.2025
Ilustração: Nair Moreira
Quando me escreveres, escreve-me com alma,
deixa que os teus sentimentos manchem a folha da tua inspiração
e não me negues o cheiro da tua emoção.
Escreve-me sem pressa,
como quem despe o silêncio palavra a palavra,
como quem confessa ao papel
o que nem a voz ousa dizer.
Que cada linha traga verdade,
mesmo que doa,
mesmo que trema.
Prefiro a ferida sincera
à palavra bonita sem vida.
E se te faltar coragem, escreve ainda assim.
Porque há textos que salvam,
não quem escreve,
mas quem os lê com o coração destampado.
Eliseu Sambú /22.12.2025
Ilustração: Nair Moreira