Escritora guineense, residente em Portugal. Tem vindo a afirmar-se como autora de livros infanto-juvenis e de contos, com participação em coletâneas e antologias no espaço da lusofonia. Venceu vários prémios literários.
Ativista literária, integra o EscritAfricando 23.
Entre asas e algemas Invisíveis encontro a liberdade.
A liberdade sempre foi uma palavra grande demais para caber numa definição simples. No mundo atual, ela continua a ser proclamada em discursos, escrita em constituições e celebrada nas redes sociais. No entanto, raramente foi tão questionada, tão frágil e, paradoxalmente, tão vigiada.
Vivemos numa era em que podemos dizer quase tudo, mas nem sempre podemos ser tudo. A liberdade de expressão expandiu-se, mas caminha lado a lado com o medo do julgamento, do cancelamento e da exclusão. Fala-se, publica-se, partilha-se, mas muitas vozes continuam a sussurrar, com receio de não caberem nos moldes do aceitável.
A tecnologia prometeu libertar o ser humano do tempo e da distância. E libertou, em parte. Hoje atravessamos continentes com um toque no ecrã. Mas essa mesma tecnologia construiu novas grades: algoritmos que decidem o que vemos, sistemas que nos observam, métricas que nos medem o valor em números. Somos livres para escolher, mas quase sempre escolhemos entre opções previamente escolhidas por outros.
No mundo do trabalho, a liberdade veste-se de flexibilidade, mas muitas vezes esconde precariedade. Trabalha-se em qualquer lugar, a qualquer hora e, por isso mesmo, trabalha-se sempre. O descanso tornou-se culpa. O silêncio, improdutivo. A liberdade, condicionada ao desempenho.
Há também uma liberdade desigual. Para alguns, é direito; para outros, é privilégio. Há quem possa circular sem medo, amar sem se esconder, existir sem se justificar. E há quem ainda lute pelo básico: o direito ao corpo, à identidade, à palavra, à dignidade. A liberdade, quando não é coletiva, torna-se incompleta.
Apesar de tudo, a liberdade resiste. Está nos pequenos gestos de desobediência consciente, na escolha de ser fiel a si mesmo, na coragem de pensar de forma crítica num mundo que prefere respostas rápidas. Está na arte, na escrita, na educação, na capacidade de imaginar futuros diferentes.
Ser livre hoje talvez não seja ausência de limites, mas consciência deles. Talvez seja escolher com lucidez, questionar com coragem e viver com responsabilidade.
A verdadeira liberdade não grita , ela constrói. Não exclui, amplia. Não domina, humaniza.
Num mundo acelerado, ser livre é também parar. Ouvir. Sentir. E lembrar que nenhuma tecnologia, sistema ou ideologia deve valer mais do que a essência humana.
Porque a liberdade, no fim, não é apenas um direito político.
É um estado de consciência.
Kátia Casimiro