Odete Semedo (Maria Odete da Costa Soares Semedo), nascida em Bissau, a 7 de Novembro de 1959, é poeta, contista, professora universitária e política.
É na qualidade de poeta que trazemos aqui o poema “O Velho Poilão,” publicado no seu primeiro livro de poesia, “Entre o Ser e o Amor”(1996). Nesta obra, a autora explora o bilinguismo ao publicar alguns poemas tanto em português como em Criolo.
“Em cada verso, evidencia-se o clamor de uma alma cindida entre as necessidades práticas do mundo material e o universo lírico de sua poesia: é a mulher do dia-a-dia debatendo-se com o dia-a-dia das reflexões metafísicas”.
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O tempo fez-me vergar
E as minhas raízes saltar
Agarro ao que de mim resta
E tento reconhecer a minha geração
De extrema
No meu reino
Tenho pesadelos
Tractores de dentes
lenhadores
De machado em punho
Meus oradores
Miram o meu tronco
pelo tempo
À espera da queda
sonho com os
tempos
Vejo os meus braços
O meu tronco
Ostentando uma cabeça
De cabelos
Simulando perfis
De rostos
Ainda recordo
De sombras que dei
Histórias de amor, noites de fogueira...
Quantas não assisti?
Fui símbolo de amor
Refúgio de namorados
Hoje é isto o que de mim resta
Tudo que em mim presta
O tempo levou
E o chão aprovou
Mas não choro
Odete Semedo, Entre o ser e o amar. Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.