por Inez Marques
Mestre em História Medieval, foi e é professora. É associada da Ser Mais Valia e da “Mulher Migrante”, por isso interessada pelas Migrações e Lusofonia numa articulação da Arte, Religião e papel das Mulheres no contexto da mobilidade lusófona.
Integra a equipa do EscritAfricando.
A obra de que aqui falaremos, tal como a literatura em geral, constitui um espaço privilegiado para a compreensão de contextos históricos, culturais e definição de identidade. Entre as diversas manifestações culturais que marcam essa identidade a MORNA é sem dúvida para além de uma forma de expressão estética musical uma marca literária de forte pendor identitário.
Nesse contexto, a obra Morna: Identidade e Literatura em Cabo Verde, de Geni Mendes de Brito, apresenta uma reflexão aprofundada sobre a relação entre música, literatura e construção identitária, demonstrando como a morna desempenha um papel fundamental na afirmação da cabo-verdianidade.
A obra está organizada em três capítulos que articulam diferentes áreas do conhecimento, como a história, a literatura, a música e os estudos culturais.
No primeiro capítulo, a autora dedica-se à formação da identidade cabo-verdiana. Inicialmente, apresenta um enquadramento histórico do arquipélago, abordando o processo de povoamento, a colonização portuguesa, a mestiçagem e os diversos fatores sociais, culturais e económicos que contribuíram para a constituição da sociedade cabo-verdiana. Geni Mendes de Brito defende que a identidade nacional não resulta de uma herança fixa, mas de um processo histórico contínuo de construção cultural, marcado pelo encontro entre diferentes tradições africanas e europeias.
Neste contexto, a autora demonstra que a insularidade, a escassez de recursos naturais, os ciclos de seca, a fome e a emigração influenciaram profundamente a forma como os cabo-verdianos desenvolveram um forte sentimento de pertença e solidariedade. Esses elementos tornam-se fundamentais para compreender tanto a produção literária como a expressão musical da morna.
O segundo capítulo centra-se na relação entre a morna e a literatura, particularmente a poesia. A autora sustenta que a morna constitui uma verdadeira poesia cantada, na qual se exprimem sentimentos de saudade, amor, nostalgia, sofrimento, esperança e resistência. Nesta parte da obra, é atribuída especial importância à produção literária de Eugénio Tavares, cuja contribuição foi decisiva para consolidar a morna como uma das mais importantes expressões culturais de Cabo Verde.
Segundo a autora, Eugénio Tavares valorizou a língua crioula como instrumento literário e poético, contribuindo para afirmar uma identidade cultural própria num contexto colonial. A análise estende-se ainda a outros escritores cabo-verdianos que incorporam os temas da morna na sua produção literária, demonstrando a estreita ligação entre música e poesia.
No terceiro capítulo, Geni Mendes de Brito amplia a análise para a narrativa cabo-verdiana. A autora identifica a presença da morna em romances e contos, mostrando que muitos dos temas recorrentes deste género musical — como a emigração, a saudade da terra natal, as dificuldades económicas, a seca e a luta pela sobrevivência — também estruturam a literatura narrativa do país.
Ao longo deste capítulo, evidencia-se que a morna funciona como uma memória coletiva capaz de preservar experiências históricas e emocionais do povo cabo-verdiano. Mais do que um género musical, transforma-se num verdadeiro património cultural e identitário.
A principal qualidade da obra reside na sua abordagem interdisciplinar. Ao estabelecer um diálogo entre literatura, música, história e cultura, Geni Mendes de Brito oferece uma perspetiva ampla sobre a construção da identidade cabo-verdiana. Esta opção metodológica permite compreender que a morna não pode ser analisada apenas como manifestação artística, mas como um fenómeno cultural complexo que sintetiza experiências históricas, sociais e afetivas.
Outro aspeto particularmente relevante é o rigor da fundamentação teórica. A autora recorre a um conjunto diversificado de referências bibliográficas e realiza análises consistentes de textos literários e poéticos, sustentando adequadamente os argumentos apresentados. A linguagem utilizada é clara e acessível, sem perder o carácter científico, o que torna a obra útil tanto para investigadores como para estudantes e leitores interessados na cultura cabo-verdiana.
A valorização da língua crioula constitui igualmente um dos pontos fortes do estudo. Ao demonstrar a importância do crioulo na poesia e na morna, a autora evidencia como a língua desempenha um papel essencial na preservação da memória coletiva e na afirmação da identidade nacional. Esta abordagem reforça a ideia de que a literatura e a música são instrumentos privilegiados de resistência cultural e de construção simbólica.
Morna: Identidade e Literatura em Cabo Verde representa, assim, um contributo significativo para os estudos sobre a cultura cabo-verdiana. Ao longo da obra, Geni Mendes de Brito demonstra que a morna constitui um dos principais símbolos da identidade nacional, funcionando simultaneamente como expressão artística, documento histórico e veículo de memória coletiva, em que a saudade se prolonga num sentimento dolente de pertença e resistência que no longe alcança a terra, esse amor que a esperança um dia traz à vida construída em tantas diásporas.
Em conclusão, trata-se de uma obra de referência para estudantes, investigadores e leitores interessados na literatura, na música e na identidade de Cabo Verde cuja leitura permite compreender que a morna não é apenas uma manifestação artística, mas uma expressão profunda da memória, da cultura e da identidade de um povo, constituindo um dos mais importantes patrimónios culturais cabo-verdianos.