Home
Edição 5, mai-ago 2026

JOVENS AUTORES

Pinto Chico Nancassa


Guineense, natural de Quinhamel (Biombo),  licenciado em Língua Portuguesa pela Escola Superior de Educação - Unidade Tchico Té, em 2011, e mestre em Administração Educacional pelo IE-ULisboa, em 2023.

Professor e presidente do Conselho Científico e Pedagógico da ESE - Tchico Té e professor na Universidade Católica da Guiné-Bissau.




Bissau Bidera*

Bissau ziguezagueia de sexo na mão
Sem credor à vista
E vai seguindo teimosamente
O rumo da multidão
Com que não se conjuga.

Já não lhe bastam os buracos
Na única calcinha
Que o tempo lhe vestiu,
Agora é a nudez que exibe
Em moransas** vizinhas.

Cresce criança
E caminha recuando,
Pensando que avança talvez.
Vai envelhecer adolescente,
Que ainda sem idade para idade
Já está envelhecida pelas esperanças
Alimentadas não sem desespero.

* Do crioulo (bidera): mulher vendedeira. Em sentido pejorativo significa mulher da vida ou prostituta. 

** Do crioulo (moransa): conjunto de casas de um agregado familiar ou de uma vizinha.

 

Silêncio

Foi como se alguém o encomendasse
E ele estivesse já à espera,
Sem receio nem rodeios;

Foi como se alguém o comprasse
E enviasse sem cadastro
E passasse invisível
Entre os olhos não propriamente cegos;

Foi como se alguém o recebesse
E abraçasse como amante
E dele não quisesse descolar;

Foi como se se tornasse,
Tão de repente, a identidade
Dos que andam ignorando-o.

O silêncio, que já era silêncio, silenciou-se,
Essa constante luta de rivais
Entre o presente e o passado,
Em que o futuro parece uma promessa.

Como aqui parece um cheiro
Que apenas é sentido e nada mais!
Como este silêncio ecoa ruídos
Que nos percorrem e inflamam as veias!

Como este conformado viver
Nos puxa os braços
E nos retarda por décadas
No mesmo sítio em que não estamos!

Como este silêncio veio ficar aqui,
Morar connosco
E brincantar-nos* esta vida
Feita de muita insinceridade!

Como?! Como veio ele
Apossar-se de nós,
Esse chicote que agride
Na violência do seu simples calar-se?!

Ah! Tanto que se farta
E se não sabe o que se fartou
Nessa medida do tempo desmedido.

 * Construção típica do crioulo (ex. brinkanta, lantanda, peganta, etc.): fazer (ou levar a) brincar.