Guineense, natural de Quinhamel (Biombo), licenciado em Língua Portuguesa pela Escola Superior de Educação - Unidade Tchico Té, em 2011, e mestre em Administração Educacional pelo IE-ULisboa, em 2023.
Professor e presidente do Conselho Científico e Pedagógico da ESE - Tchico Té e professor na Universidade Católica da Guiné-Bissau.
Bissau Bidera*
Bissau ziguezagueia de sexo na mão
Sem credor à vista
E vai seguindo teimosamente
O rumo da multidão
Com que não se conjuga.
Já não lhe bastam os buracos
Na única calcinha
Que o tempo lhe vestiu,
Agora é a nudez que exibe
Em moransas** vizinhas.
Cresce criança
E caminha recuando,
Pensando que avança talvez.
Vai envelhecer adolescente,
Que ainda sem idade para idade
Já está envelhecida pelas esperanças
Alimentadas não sem desespero.
* Do crioulo (bidera): mulher vendedeira. Em sentido pejorativo significa mulher da vida ou prostituta.
** Do crioulo (moransa): conjunto de casas de um agregado familiar ou de uma vizinha.
Silêncio
Foi como se alguém o encomendasse
E ele estivesse já à espera,
Sem receio nem rodeios;
Foi como se alguém o comprasse
E enviasse sem cadastro
E passasse invisível
Entre os olhos não propriamente cegos;
Foi como se alguém o recebesse
E abraçasse como amante
E dele não quisesse descolar;
Foi como se se tornasse,
Tão de repente, a identidade
Dos que andam ignorando-o.
O silêncio, que já era silêncio, silenciou-se,
Essa constante luta de rivais
Entre o presente e o passado,
Em que o futuro parece uma promessa.
Como aqui parece um cheiro
Que apenas é sentido e nada mais!
Como este silêncio ecoa ruídos
Que nos percorrem e inflamam as veias!
Como este conformado viver
Nos puxa os braços
E nos retarda por décadas
No mesmo sítio em que não estamos!
Como este silêncio veio ficar aqui,
Morar connosco
E brincantar-nos* esta vida
Feita de muita insinceridade!
Como?! Como veio ele
Apossar-se de nós,
Esse chicote que agride
Na violência do seu simples calar-se?!
Ah! Tanto que se farta
E se não sabe o que se fartou
Nessa medida do tempo desmedido.
* Construção típica do crioulo (ex. brinkanta, lantanda, peganta, etc.): fazer (ou levar a) brincar.