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Edição 5, mai-ago 2026

ENTREVISTA

por JOSÉ ALVES JANA



Olinda Beja é uma grande escritora santomense: mais de 20 obras publicadas, traduções em várias línguas, estudada na Academia em diversos países, premiada e cada vez com maior reconhecimento. Foi complicado, por razões de agenda, mas conseguimos ter uma conversa por videoconferência. Mostrou-se uma mulher doce, acessível, uma arca de estórias, disponível para todas as questões. Apaixonada pela sua terra, ou melhor, pelas suas terras, e valorizada em particular pelo seu compromisso com a cultura santomense.


Olinda Beja

Uma voz maior de São Tomé

" Eu começo a publicar em 1992 e só em 2013 é a edição do meu primeiro livro para crianças. Nunca pensei em escrever para crianças porque nós os ilhéus – agora falo como sendo uma pessoa de uma ilha – temos sempre aquela coisa da poesia, eu escrevi sempre poesia.

Comecemos por uma pequena observação: nasceu em 1946 ou em 48?

Em 46.

Portanto faz 80 anos.

Já fiz.

Parabéns. Nasceu em São Tomé, veio para Portugal aos dois anos e meio e só voltou 37 anos depois, quase com 40. Certo?

Sim, voltei em 1985.

Dado que deve ter guardado poucas memórias da sua origem e que São Tomé terá estado bastante ausente do seu crescimento em Mangualde (Portugal), junto dos seus pais adotivos, como foi o “regresso” à sua origem, a sua redescoberta de São Tomé?

Foi um regresso muito dramático. A família paterna disse-me sempre que a minha mãe biológica, a minha mãe africana, tinha morrido. Portanto, eu não tinha mãe. A mãe que eu tinha era a mãe adotiva em Mangualde. Fui criada por uma prima direita do meu pai, minha prima também e minha madrinha, que foi depois quem me batizou. Era a minha família. O meu pai [que ficou em São Tomé], durante esses anos todos, até à sua morte precoce aos 59 anos, escreve-me e fala-me sempre em São Tomé, descreve-me São Tomé, mas nunca me falou na minha mãe, nunca. Eu, por vezes, ficava um pouco atrapalhada com as colegas do colégio quando eu dizia “a minha mãe”, a minha mãe adotiva, e as miúdas do colégio, pequenitas, diziam: “O teu pai é branco, a tua mãe é branca e tu és preta. Como é isso?” Isso começa a borbulhar no meu cérebro: há qualquer coisa aqui que não está certa. Mas tudo isso passou. Continuei sempre em Portugal, fiz o meu curso [Diploma Superior dos Altos Estudos Franceses da Alliance Française e, depois, a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês), pela U. Porto], e comecei a dar aulas. Fui professora do ensino secundário durante muitos anos.

Até que, um dia, em 1984, alguém me bate à porta: é a minha irmã, que eu não conhecia. Tinha vindo um ano antes para Lisboa e veio à minha procura. E, de choque, quando eu abro a porta ela diz-me: “É só para dizer que eu sou a tua irmã Lucília e que a tua história está mal contada. A tua mãe biológica está viva e continua à tua espera”. Ela sabia a minha história, eu é que não sabia. Isto aos [meus] 39 anos, é de ficar completamente louca, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. E eu disse: “Não, isso não pode ser verdade porque a minha família [adotiva] não é mentirosa”. “Tens de vir a São Tomé.” “Não vou. Eu tenho a minha vida toda aqui, não vou agora acreditar numa pessoa que diz que é minha irmã, mas que eu não conheço pessoalmente e que me diz que toda a minha história está errada.” Eu já era casada, já estava a dar aulas, já tinha a minha vida toda controlada e já tinha um filho. Não podia imaginar que aquilo era realmente verdade. E começo a debater-me. E ela sempre a dizer: “Tens de ir a São Tomé.” Foi um drama. Até ao dia em que o meu marido diz: “Olha, eu acho que tu fazes muito mal, é um crime o que tu estás a fazer, não ires conhecer a tua mãe biológica. Já te disseram que é verdade e que ela está a sofrer.” Ele foi o grande impulsionador do meu regresso a São Tomé.

Então eu resolvi ir. “Mas vou sozinha”. E ela disse: “Não, sozinha não, porque os mais velhos, que é o caso da tua mãe, falam crioulo e tu não sabes falar crioulo, não conheces nada de São Tomé, não conheces a comida, não conheces o resto da família. A tua mãe tem 20 irmãos, eles vão estar todos à volta de ti e tu vais ficar à frente deles… Eu vou contigo.”

[A luta interior continuou, ainda houve várias tentativas de recusa, mas a irmã insistiu:] “Já aqui tenho os bilhetes e já falei com o comandante [do avião], tu vais mesmo”. Foi muito complicado. Quando chego a São Tomé e o avião aterra, vejo que não há luz na cidade. Puseram um camião com os faróis acesos para o avião aterrar na pista. Eu entro em parafuso: “Não, não há energia. Eu não saio.” E ela diz-me: “Não há energia, não há arroz, não há açúcar, não há farinha, não há pão, mas é tudo muito bonito, tu vais ficar encantada com a natureza”. Mas eu começo a gritar dentro do avião: “Eu não saio, não venho para esta terra”. Isto é em 85, estamos a 10 anos da independência, não é? Eu a chorar como uma Madalena. Então vem o comandante do avião, que ainda é vivo, o comandante Gato, ter comigo e diz: “Então a senhora está a chorar porquê?” Eu nem conseguia falar. E a hospedeira: “A senhora vem rever a mãe que deixou há 37 anos”. E o comandante estendeu-me o braço…. Eu estou quase a chorar porque devo tudo àquele homem. Pega-me pela mão e desce comigo. “Vá ter com a sua mãe, é a coisa melhor que pode fazer na sua vida”.

O seu São Tomé, aquele que aparece na obra é uma espécie de paraíso. Esse paraíso encontrou-o depois ao conhecer a terra, as pessoas, os costumes ou é fruto da imaginação, um paraíso desejado?

Não [é imaginado], porque eu, desde 1985 até 2026, todos os anos vou a São Tomé. Por duas vezes fiquei um ano inteiro, com bolsa de criação literária. E não é para ficar na cidade, eu vivo no interior onde tenho a casa [herdada] da minha mãe, uma casa de madeira no meio da floresta. É para lá que eu vou e depois vou à procura dos contadores de histórias, dos tios mais velhos, dos amigos que também vivem na floresta. Portanto, eu conheço São Tomé de norte a sul, de leste a oeste, no interior. Só nunca fui ao pico de São Tomé (ri-se), porque tenho medo.

Viveu 10 anos na Suíça, onde? E foi professora de quê?

Vivi 10 anos em Lausanne, [sempre] na mesma rua, no mesmo prédio, na mesma casa e fui professora de língua e cultura portuguesa e língua e cultura lusófona.

Como foi, para si, a descoberta da escrita?

Foi talvez pelo sofrimento. Porque durante muitos anos – e isto não é segredo, as pessoas têm que ouvir e aceitar aquilo que se passou nesse Portugal e que ainda se passa – no bairro onde vivi em Mangualde, no Largo da Carvalha, aí fui sempre a Mariazinha, era o meu nome de infância; fora disso eu era a preta. Os colegas chamavam-me a preta, até os professores me chamavam a preta - Ó preta, diz lá tu.  Eu não tinha nome, e então eu chorava, chorava muito. A minha mãe adotiva era impecável, ia ao colégio falar com a diretora, que não podia ser. Eu tinha colegas que iam atrás de mim “preta da Guiné, lava a cara com café”, e eu vinha a chorar e dizia: “Mas, afinal, eu sou de São Tomé ou da Guiné?” E, depois, em vez de estar a estudar, eu escrevia os meus avós paternos que eram todos professores. Eu sou de uma família portuguesa de professores, em minha casa havia os livros do bisavô que foi professor toda a vida, dos tios, da avó paterna. Havia imensos livros. Portanto habituei-me a ler desde o Guerra Junqueiro… e havia os [autores] que estavam no programa do colégio. Recitei sempre muito bem e a professora queria que eu recitasse. Comecei a escrever aos 15 anos, coisas simples, coisas de criança, por vezes poemas de crítica aos professores. Tive um professor que me marcou pela negativa. Eu não era boa aluna na parte de ciências, era boa a letras. Um dia ele entrega-me o teste de matemática e diz-me. “Olha tu, realmente os pretos são estúpidos. Tu sabes que nota é que tu tiraste no teu teste?” E eu caladita. “Tiraste zero menos interrogado”. Eu nunca vi um zero menos interrogado!... Mas ele disse isso, e era uma mágoa, porque depois todos se riam e eu ia para casa e escrevia, escrevia contra os professores. Portanto, é aí que eu começo a descobrir a escrita, mas nunca pensei em publicar.

E como dá o salto para publicar?

Foi muito engraçado. Após a independência, começaram a sair os santomenses que queriam tirar cursos superiores, pois em São Tomé só tínhamos até ao 9º no ano. Os santomenses vinham para Aveiro, que tinha uma geminação muitíssimo boa com as duas ilhas, com São Tomé e com o Príncipe. Um dia eu fui a Aveiro e convidei esses alunos a virem à minha quinta [perto de Viseu] para fazermos um piquenique com comida de São Tomé. Eles vieram e trouxeram o presidente da Câmara de então, o Dr. José Girão Pereira, que já partiu e a quem eu devo tudo. Foi em 1991. Fez-se comida santomense, cantou-se, vinha um rapaz que tocava viola, e eu comecei a dizer os meus poemas. O Dr. Girão Pereira estava muito admirado e no final perguntou-me “Quem é o autor desses poemas que esteve a dizer?” “São meus.” “O quê?! A senhora escreve e nunca publicou? Mas vai publicar. Aveiro vai publicar.” E assim foi, [a Câmara de] Aveiro publicou o meu primeiro livro, Bô Tendê?, [poemas, 1992], que significa “Você entende?” Depois publicou Leve Leve, e publicou ainda um terceiro, No País do Tchiloli [poemas].

Entretanto publica um romance, 15 Dias de Regresso (1994), já numa editora, e nunca mais parou. E para crianças?

Eu começo a publicar em 1992 e só em 2013 é a edição do meu primeiro livro para crianças. Nunca pensei em escrever para crianças porque nós os ilhéus – agora falo como sendo uma pessoa de uma ilha – temos sempre aquela coisa da poesia, eu escrevi sempre poesia. Escrevi, até hoje, onze livros de poemas, alguns com prémios, dois romances, sete livros de contos e oito livros infantis.

E como surge o livro para crianças?  

Em 2010, na Feira do Livro, em Lisboa, já com bastantes obras publicadas, as pessoas perguntavam: “E para crianças, não tem nada?” Não tinha. “Mas devia escrever, porque as crianças em São Tomé não têm livros”. É assim que surge Um grão de café [o primeiro da literatura infantil santomense]. Está no Brasil, em quase todas as escolas de Minas Gerais, e está traduzido em japonês, é dado nas escolas do Japão.

Como vê, hoje, o seu percurso literário?

O que é que eu lhe hei de responder? Com altos e baixos, com coisas muito boas e algumas menos boas – não direi más, porque não são más, mas algumas menos boas. Por exemplo, quando os livros começaram a sair, eu estava a dar aulas numa escola secundária e um colega disse para outro: “Eu não acredito que ela tivesse escrito aquilo. É uma compilação de outros autores e agora diz que é dela”. E uma, que era tão minha amiga, veio: “Olinda, desculpa, mas foste mesmo tu que escreveste?” Isto dói!

Para lá dos altos e baixos, o que é que representa para si hoje a obra publicada?

Ah, representa a minha vida toda, representa tudo o que eu não sonhei, mas que depois acabei por sonhar. Agora tenho, pela nona vez, uma viagem ao Brasil e pela décima vez uma viagem para Cabo Verde. Eu nunca iria dez vezes a Cabo Verde nem nove vezes ao Brasil se não fossem os livros. É uma felicidade, uma coisa que eu nem sei explicar.

Além da escrita, faz espetáculos, sessões de contar histórias, dizer poemas, não sei se também canta.

Canto.

Há aí uma certa militância pela cultura de São Tomé.

Não só pela de São Tomé, porque eu não posso escurecer 37 anos [apenas] na Europa. Desde a escola primária até à universidade, até o casamento, tudo faz parte de mim. Eu corro o mundo a fazer recitais, já fiz quase um milhar de recitais de poesia, poesia com música. Gostei sempre muito de dizer poesia acompanhada da viola, não do piano, por exemplo.

Poeta, romancista, contadora de histórias… com recitais por muitos sítios… publicada em vários países, incluindo o Japão…   A que se deve essa expansão de uma escritora de um país periférico, tanto Portugal como São Tomé? Como se deu toda esta projeção?

Não lhe sei explicar. Não sei. Eu consegui pôr os árabes a cantar crioulo no Dubai… Tenho um jornal dessa época em que o jornalista diz que nunca imaginou que se pudesse dizer poesia daquela maneira, da forma como eu a vivo, e tenho-a dito sempre assim. Vejo que as pessoas ficam estarrecidas, talvez porque eu vivo aquilo que digo. E não estou com o livro aberto. A poesia está aqui [no peito]. Dizem que saí ao meu pai, memória de elefante. Eu fui ao grande festival da poesia de Berlim, em 2009, e tive uma discussão com o [responsável pelo palco, que lhe queria impor a estante para o livro de apoio, que ela recusava]. Quando acabei, ele veio dar-me um abraço muito grande e disse nunca tinha visto [alguém fazer 45 minutos de poesia sem um livro aberto]. Não preciso de livro, não preciso de nada, a poesia sai. Talvez também seja por isso, fico com os braços livres para exteriorizar aquilo que sinto. Depois vem a música, tenho sempre um músico para me acompanhar, Filipe Santos, que é São Tomé, ou Luís de Almeida, que é de Portugal. Faço aquilo que gosto e tento sempre transmitir aquilo que sinto e aquilo que passei, porque sou capaz de cantar um fado, sou capaz de cantar um batuque, mesmo para as crianças eu levo um batuque e elas cantam comigo as batucadas. Também porque tive uma avó, que morreu com 112 anos e que ainda tive a felicidade de conhecer, que foi a minha grande contadora de histórias.

Recomende-me dois dos seus livros, diferentes entre si.

É tão difícil…  À Sombra do Oká [poemas, 2013], um livro que demorei 10 anos a escrever, mas valeu a pena – é a minha vida toda, a minha alma, o meu coração, é o meu chão. É um livro que está traduzido em árabe e em espanhol e que ganhou o prémio Francisco José Tenreiro. O outro, Um grão de café. Depois saiu o Tomé Bombom (conto infanto-juvenil, 2016) porque eu queria que as crianças do meu país soubessem a história do café e a história do chocolate.

O que representou para si o prémio Francisco José Tenreiro?

Representou muito, muitíssimo. E representa. Porque, além de ter ganho este este prémio, o oká, em São Tomé, é a maior árvore da floresta e dizem que é a maior árvore do mundo. A minha mãe nunca teve medo do oká. O oká tem uma espuma, uma sumaúma, e ela fazia as almofadas da cama com a espuma do oká. Eu dizia às pessoas que dormia, e durmo, com a cabeça no oká. Mas é uma árvore que não é amada pelos santomenses, têm medo do oká. Dizem que é a árvore dos feitiços.

O que me diz do seu Pé-de-Perfume (contos, 2021)?

Tem uma capa com uma imagem [da autoria] de um senhor de Aveiro, e as ilustrações do interior são da filha, Sara Bandarra. Ylang-ylang é o nome científico da planta. É a árvore do perfume, uma árvore lindíssima. Gosto imenso deste livro. O Brasil adotou-o em várias universidades porque tem a preocupação com a natureza, eu preocupo-me muito com a natureza.

Para lá dos autores santomenses consagrados – como Alda Espírito Santo ou Conceição Lima (recentemente falecida) e, é claro, Olinda Beja – pode recomendar-nos um ou dois autores santomenses em afirmação?

É muito difícil. Em São Tomé não há bibliotecas, não há livrarias, não há editoras… Temos de esperar mais algum tempo para ver o que surge.

Tem algum livro de que possamos ficar à espera?

Vai sair no fim do ano O canto do silêncio.

Entretanto, perto de nós ou bastante longe, Olinda Beja continua a fazer ouvir a sua voz dizendo e cantando a cultura da sua terra, do nosso mundo.

(Vídeo cedido por Olinda Beja) 




Bibliografia de Olinda Beja

Bô Tendê? (poesia, 1992, C.M. Aveiro)

Leve, Leve (poesia, 1993, C.M. Aveiro)

15 Dias de Regresso (romance, 1994, Pé-de-Pag. Editores)

No País do Tchiloli (poesia, 1996, C.M. Aveiro)

A Pedra de Villa Nova (romance, 1999, Palimage Editores)

Pingos de Chuva (conto, 2000, Palimage Editores)

Quebra-Mar (poesia, 2001, Palimage Editores)

Água Crioula (poesia, 2002, Pé –de-Página Editores)

A Ilha de Izunari (conto, 2003, S.T.P. – Instituto Camões)

Pé-de-Perfume (contos - Bolsa de Criação Literária, 2004, Nimba Edições)

Aromas de Cajamanga (poesia, 2009, Editora Escrituras S. Paulo, Brasil)

O Cruzeiro do Sul (poesia, 2011 - Edição bilingue: Port./Esp. – Edit El Taller del Poeta, Pontevedra)

A casa do pastor (conto, 2011, Chiado Editora)

Histórias da Gravana (conto, 2011, Editora Escrituras S. Paulo, Brasil)

Um grão de café (conto infanto-juvenil, 2013, Editora Edições Esgotadas )

À Sombra do Oká (poesia, 2013, Editora Edições Esgotadas)

Tomé Bombom (conto infanto-juvenil, 2016, Editora Edições Esgotadas)

Chá do Príncipe (conto, 2017, Rosa de Porcelana Editora)

Simão Balalão (conto infanto-juvenil, 2019, Editorial Novembro)

Kilêlê: A dança sagrada do falcão (poesia, 2021, Rosa de Porcelana Editora)

Pé-de-perfume (Ylang-Ylang) (conto, 2021, Nimba Edições)

Mikoló, A nossa estrela (conto infanto-juvenil, 2025, Windbalance LDA)

O canto do silêncio [no prelo]

Material de apoio:

Entrevista (Universidade Aberta / RTP
Página da wikipédia
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